De onde é quase horizonte, tal qual o poema.

De onde é quase o horizonte 
Sobe uma névoa ligeira 
E afaga o pequeno monte 
Que pára na dianteira. 

E com braços de farrapo 
Quase invisíveis e frios, 
Faz cair seu ser de trapo 
Sobre os contornos macios. 

Um pouco de alto medito 
A névoa só com a ver. 
A vida? Não acredito. 
A crença? Não sei viver. 

Fernando Pessoa, in "Cancioneiro"

Antes de viver, o silêncio. Depois do que se viveu, o silêncio

Olhar, falar (em silêncio), contemplar o horizonte

Buscar, acessar a memória, limites do ser

Horizontar, ocupar horizontes de cor, pictorizar


  Em seu processo de criação o artista transfere desejos, dúvidas e revoltas para a observação silenciosa, do aparentemente concreto, o horizonte.

    Na possibilidade de enquanto terra ou mar tocarmos o céu, alcançamos o interior do desejo humano, que busca, procura, vasculha e sempre tem mais o que buscar, procurar e vasculhar. Somos montes de silêncios, diariamente nos desconstruindo, algumas vezes de forma brusca, buscando ser planícies. O desejo de tocar o céu da satisfação, encontrar um sentido maior, a distância entre o que somos e o que desejamos. 

Sendo montes, tocaríamos o céu com mais facilidade.

    Curiosamente, contemplar o horizonte à frente, é uma forma de acessar a síntese do passado, da memória e das emoções.

O som que vem de dentro do mar buscando luz e ar no final da onda, o riso dos amigos vibrando com as cordas do violão, os tons dos melhores dias, a voz e as cores da pessoa amada e até a lembrança do que não foi vivido, de forma semelhante ao reconhecimento cerebral das cores.

A relativa ausência das palavras, que vasculha cada canto do céu de dentro, tentando tocar corpo e alma, pictoriza nosso agir, com o que antes ocupava nossas emoções, o estudo da cor, o exercício diário em busca do que cada uma delas representa.


    A criação, o sentido que buscamos além do horizonte. 


    Calvino, em Palomar, fala que só depois de haver conhecido a superfície das coisas é que se pode proceder à busca daquilo que está embaixo. Mas a superfície das coisas é inexaurível.

Assim é o desejo pelo que está além do horizonte, nos lança à busca, e tão logo chegamos, nos deparamos com uma nova busca, previsível e infinita, além dos limites do nosso próprio ser, repletas de possibilidades.


                                                                                                   


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